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Tá pensando que teve filho com o Neymar?

Juiz: “tá pensando que teve filho com o Neymar?”

Advogada do autor: “a senhora é jovem, pode muito bem trabalhar.”
Promotor: “Excelência, como ela vai trabalhar com dois filhos pequenos?”

Ela não levantou a cabeça. Escolheu a liberdade de um divórcio rápido para não prolongar o contato com o próprio agressor, que sorria com provocação.

Essa é uma das 20 milhões de mulheres que a cantora Shakira citou. Uma mãe que, enquanto pega a condução para o segundo emprego, que paga a creche das crianças para que ela trabalhe no primeiro, pensa em chegar a tempo de buscar os filhos na escola, mas segue engolindo o choro porque não teve filho com o Neymar. Somos um país que transforma em ídolo quem trai, que naturaliza o homem que acumula filhos com diferentes mulheres como símbolo de virilidade, enquanto vigia e julga o corpo feminino como se ele fosse sempre suspeito. O nome disso, para muitos, ainda é “golpe da barriga”. Seja o homem de renda alta, média ou baixa, ele teme esse suposto golpe como se a gravidez não tivesse impacto maior na vida da mulher, como se o corpo não fosse dela, como se a rotina não fosse completamente transformada, como se a mulher pudesse gerar sem uma ação consciente de um homem e como se o papel contraceptivo fosse exclusivamente dela. Quantos homens você já viu sendo julgados por uma gravidez? Quantos ouviram, durante o parto, frases cruéis como “tá gritando agora, mas na hora de virar os olhos…”? O medo é deles, mas o peso quase sempre é delas. Sabendo que sua única função será pagar uma pensão, esses homens continuam engravidando outras mulheres, batem no peito e dizem “eu tive filho com várias”, como se quantidade fosse currículo e ausência não deixasse marca. Certa vez, atendi um homem que não sabia o nome de um dos filhos e precisou olhar no celular.

A mulher não. Sabendo o peso da responsabilidade, ela até se envolve amorosamente, mas adia a decisão de ter filhos, como se o próximo tivesse culpa do péssimo pai que o anterior foi, como se o sonho pudesse virar um novo pesadelo. E ainda tentam colocar tudo no mesmo lugar, como se “mãe solo” fosse uma red flag e “ele tem filho com várias” apenas um detalhe de biografia, como se crianças carregassem um desvio de caráter. Não carregam. Boas mães são boas esposas. De pais ausentes, não se pode dizer o mesmo.

E quando um jogador se relaciona com uma mulher que tem três filhos, a pergunta vem carregada de julgamento, como se ter enteados fosse ruim. Como se ela fosse o problema. Como se a história dela diminuísse o valor dela. Mas quando é o homem que tem filhos com várias, o discurso muda, a régua muda, o peso muda. O que para ela é estigma, para ele vira estatística irrelevante. E é aí que o país revela exatamente o que normaliza.

Vivemos em um país que consome fofoca e esquece de cobrar desempenho do atleta, mas que também já teve outras referências. Nós somos o país de Kaká, de Pedro, e crescemos aplaudindo Messi e Cristiano Ronaldo. Talvez a escolha esteja exatamente aí: escolher nossos ídolos pelo que fazem em campo, mas nem sempre imitar o que fazem fora dele. Eu digo às minhas amigas que, se o sonho for ser mãe, escolham um homem que queira ser pai, porque ninguém te conta o que é estar com um filho chorando à noite enquanto o pai posta stories vivendo uma vida que não inclui aquele choro. O Brasil não educa os homens para serem pais e, em contrapartida, descarrega na mulher a profissão mãe, como se maternar fosse um fardo e não uma das experiências mais profundas que existem. Enquanto isso, a paternidade segue sendo tratada como opcional e o debate gira no lugar errado. Não é sobre com quem alguém teve filhos, mas sobre o que se faz depois disso. É sobre presença, compromisso e responsabilidade emocional. Quantos pais interromperam a própria vida para acompanhar um filho? Quantos levaram uma criança pela mão enquanto tentavam terminar os estudos? Quantas mães fizeram isso? E quantas terapias não começam com “então… eu sou filho de pais separados…”? Quantas portas no mercado de trabalho se fecharam para elas?

Os dados mostram um país onde, especialmente no Norte e Nordeste, mulheres sustentam lares inteiros sozinhas, não por escolha, mas por ausência. Mas, desta vez, a resposta veio de outro lugar. Nós já usamos “100% Jesus” em uma faixa para pedir um bom resultado em campo, mas Cristo está em todos os lugares. Muita coisa mudou, muita gente não sabe se vai ser convidada para a próxima Copa, mas Shakira já foi, porque provou que está em perfeita forma. A voz de “Waka Waka”, um dos maiores hinos da história das Copas, voltou ainda mais forte. Aos 40+, ela rende no palco mais do que muitos rendem em campo. No Brasil, ela não entregou apenas uma apresentação, entregou um enredo. A mulher latina tem o borogodó, tentaram nos parar, voltamos melhores. Viva a mulher que fala em oito idiomas e, no oitavo, fez história.

Elas já sabem que não tiveram filhos com Neymar, eles é que precisam saber que não são o Neymar antes de “fazer” um filho. 🤍

Ah, a moça da audiência também deu a volta por cima. E outra coisa: esse ano não tem Piquet na seleção da Espanha, mas vai ter muuuuuito “Waka, Waka”.



Texto escrito por: Ana Favia
@anaflaviaprofa